Obesidade adulta e infantil, desinformação e direito do consumidor
Causa estranheza o desconhecimento
de muitos consumidores sobre as propriedades e funções dos produtos
alimentícios, a despeito de todas as informações que são lançadas via
imprensa escrita, falada, nos portais da internet etc.. As pessoas
continuam engordando mal (não há qualquer problema em estar acima do
peso esperado para a idade, estatura, gênero, desde que se tenha saúde)
com sérios problemas para sua qualidade de vida. E, por outro lado, é
também sabido que é possível alimentar-se bem e com prazer sem qualquer
prejuízo à saúde.
Muito bem. Na semana passada, foi publicada uma pesquisa que mostrou
que, em 2012, 51% da população brasileira estava acima do peso.
Os dados apresentados demonstram que a taxa de sobrepeso vem crescendo
constantemente, ano a ano. Em 2006, o percentual dos mais gordos era de
43%. Já em 2011 passou a 48,5% e chegou à maioria agora em 2012.
A pesquisa mostrou mais ou menos o óbvio: que a dieta alimentar
inadequada é a causa principal do problema. Constatou-se o consumo
exagerado de gorduras e refrigerantes.
Em função da publicação da pesquisa, o Ministério da Saúde anunciou
que tem projetos para combater os maus hábitos, construindo polos com
academias para incentivar a prática de exercícios e um programa de
orientação nutricional para alunos da rede pública, além de acordos com a
indústria para reduzir o teor de sódio nos alimentos. São ações
bem-vindas, mas ainda é pouco. E falta conscientização dos consumidores,
pois pelo que se pode constatar, nesse assunto dos maus hábitos
alimentares, um dos grandes vilões é o próprio consumidor. O mercado
está repleto de produtos alimentícios que “não alimentam” de verdade e
engordam brutalmente, de anúncios publicitários que incitam a aquisição
desses produtos e, infelizmente, milhões de consumidores estão
acostumados a ingeri-los e até defendem esse tipo de consumo.
A pesquisa está centrada na população adulta, mas é sabido de todos
que o problema do sobrepeso e também da obesidade começa bem mais cedo,
na infância. Aliás, já mostrei aqui nesta coluna que a obesidade
infantil é uma epidemia mundial.
Há, contudo, boas notícias. Na mesma semana passada, foi aprovado no
Senado Federal o projeto apresentado pelo Senador Paulo Paim (nº 406 de
2005) que proíbe a venda em escolas públicas e privadas de bebidas com
baixo valor nutricional, como o refrigerante, e de alimentos com alto
teor de gordura e sódio, como os salgados. O projeto segue agora para a
Câmara dos Deputados.
Esse tema dos alimentos de baixo teor nutritivo e repleto de
ingredientes que fazem mal ao organismo, como sódio, açúcares,
gorduras, conservantes etc. deveria ser tranquilamente conhecido de
todos os consumidores. Seu consumo excessivo deveria ser, realmente,
evitado como algo óbvio. Mas, não é. Basta um único exemplo: o do
incrível consumo de refrigerantes.
São muitas as matérias científicas e jornalísticas que mostram os
malefícios da ingestão desse tipo de bebida. E pelo que se pode ver, o
correto é simplesmente deixar de tomá-la, pois ela apenas faz mal. Como
disse o pediatra e nutrólogo Fábio Ancona Lopes “Não há uma
indicação de quantidade recomendada, simplesmente, porque ela não deve
fazer parte do cardápio nem da rotina das crianças. Quanto menos
ingerir, melhor"
Um dos problemas ligados aos produtos alimentícios a serem evitados é
o da publicidade. Cito também e apenas um exemplo atual: o de um
anúncio da coca-cola que está sendo impugnado pelo site de
abaixo-assinados change.org[4]. Diz a petição: “Pedimos a remoção imediata da campanha publicitária ‘Energia Positiva’
que está sendo veiculada pela Coca-Cola no Brasil em comerciais de
televisão, cinema, outdoors, pontos de venda e plataforma online. Esta
campanha foi proibida por órgãos do México e do Reino Unido por ser considerada enganosa e trazer riscos à saúde. A campanha transmite informações erradas aos consumidores,
pois promove o consumo maior de calorias para ser gasto com diferentes
atividades físicas, e ainda não deixa claro que esse produto contém
sódio e outros aditivos químicos que podem acarretar em problemas de
saúde. Este tipo de publicidade contribui para agravar a epidemia atual de sobrepeso e obesidade que a população brasileira está sofrendo”.
O outro é o do costume que já está incorporado ao cotidiano de
hábitos alimentares. Se para os adultos é difícil largar o vício, para
as crianças é pior ainda. Não é simples bolar estratégias para evitar
esse tipo de consumo com os atrativos do mercado. Como mostrou a matéria
publicada pela jornalista Sheila Fernandes, proibir a bebida talvez não
seja a maneira mais eficaz de brecar o consumo exagerado. O hábito de
beber refrigerante está enraizado na educação nutricional do dia-a-dia. A
conscientização dos pais é um caminho inicial a seguir: "As
crianças aprendem por imitação. Elas gravam tudo e gostam de se
comportar como os pais, ou seja, se os adultos consomem muito
refrigerante, é bem provável que a criança também venha a consumir, por
isso a educação nutricional desde cedo é importante", afirma Maria
Edna de Melo, endocrinologista e diretora da Abeso (Associação
Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica)
E ainda outro problema é o da influência do meio circundante: amigos,
escolas, festas etc.. Nas festas infantis, há uma enorme oferta de
produtos da pior qualidade nutricional, como frituras, salgadinhos,
doces, bolos, balas, refrigerantes e sucos adoçados etc.. É como se os
pais entregassem seus filhos para experiências nutricionais sinistras.
Nas escolas se dá o mesmo, com a compra e troca de alimentos entre os
colegas e amigos. Por isso é que a proibição da venda de guloseimas e
outros alimentos de qualidade duvidosa nas cantinas desses
estabelecimentos está por demais atrasada. Alguns Estados brasileiros
têm legislação sobre o assunto, mas há que se implantar a medida
urgentemente em todo o país.
Uma outra boa notícia: algumas escolas já adotam a oferta de produtos
de alto valor nutritivo e baixam regras para evitar que seus alunos
ingiram porcarias. Proíbem, por exemplo, que os pais enviem para o
lanche doces, salgadinhos, refrigerantes etc. No entanto, você leitor,
sabe o que muitas vezes acontece ali? Os pais reclamam! Isso, os pais
podem ser um entrave para que os filhos se alimentem bem. Eu li,
recentemente, na web o relato de uma mãe protestando contra uma escola,
porque esta estava proibindo que ela – mãe – mandasse guloseimas
açucaradas e gorduras vazias na lancheira de seu filho. Ela, que se
dizia indignada, afirmou: “Quem manda no lanche do meu filho, sou eu”.
E justificou sua opinião com o argumento de que se tratava de um
direito individual e que a proibição seria invasão de privacidade.
Certamente, ela se esqueceu de que uma escola não é um lugar privado,
mas público e que seu filho tem, diariamente, relação com os demais
colegas e amigos de sala e de toda a escola. Fiquei a pensar, o que ela
diria – se não gostasse que se filho ingerisse produtos de má qualidade –
se o filho chegasse da escola e se negasse a jantar porque estava
empanturrado dos salgadinhos e refrigerantes que havia recebido de seu
melhor amigo. Lembre-se que, como eu disse, se a escola é pública, o
ambiente do lanche é o local de maior contato e divisão entre os alunos.
É lá que eles conversam, fofocam, disputam, trocam, ficam à vontade,
enfim, se divertem.
A proibição de venda de produtos de baixo valor nutritivo e repletos
de açucares, sódio, conservantes e demais componentes indesejáveis é
algo a favor da saúde das crianças e adolescentes. Serviria de exemplo,
as educaria e também educaria e ajudaria aos pais, que ainda estão
perdidos nesse assunto.
Além disso, lembro que há um outro problema e invertido: o daqueles
pais conscientes em relação à questão alimentar e dos menores
submetidos a dietas corretas por decisão dos pais ou intervenção
médica. Como mostrei no meu artigo anterior sobre o assunto, o
depoimento da Endocrinologista Pediátrica Dra. Soraya Cristina
Sant´Ana, me parece suficiente para esclarecer alguns dos pontos
principais da questão.
Diz ela: “Minhas crianças vivem esta batalha
diariamente, pois muitas realizam consultas periódicas por obesidade,
diabetes, colesterol ou triglicérides elevados. E não há nada mais
frustrante do que nos depararmos com piora da obesidade e dos exames,
após o empenho de toda família pela melhora da saúde da criança; e
depois de uma conversa minuciosa, descobrirmos que apesar de todo
esforço da família, a criança não melhorou porque continuou comendo
guloseimas, escondido na escola. Ou então ouvir o choro de um garoto de 9
anos que chega a ser torturado com as guloseimas que seus amigos
compram na cantina, ele conta que os outros meninos sabem que ele não
pode comer guloseimas, então, de propósito eles compram e ficam passando
os doces em seu nariz, para provocá-lo.
Então, eu sei sim o quanto esta batalha contra a má alimentação é
árdua e só está começando. E que, se não houver o apoio das escolas,
dificilmente atingiremos o sucesso!!”
Os produtores irão colaborar? De livre e espontânea vontade, duvido
muito. Há que se legislar para se restringir a venda de alguns produtos
em certos pontos (como as cantinas em escolas), fiscalizar e controlar
as informações que são oferecidas, assim como o mecanismo do marketing e
da publicidade. Naturalmente, cabe aos consumidores adultos adotar um
hábito alimentar mais saudável para si e para seus filhos menores.
[1] Publicado, por exemplo, e por todos em www.g1.globo.com/bem-estar de 27-8-2013./ Rizzatto Nunes

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